Dia de Natal na Chapada Diamantina.
Na encosta dos montes
a estampa da sombra das nuvens
alça-me ao sem nome.
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 20h43
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Num lapidário em Andaraí
vi a pedra bruta virar luz.
Labor sensível do seu Luiz.
Seu trabalho delicado é alegoria deste meu, sendo eu um cerzidor de palavras.
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 19h24
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Ontem passei em Ibotirama, terra do monstro das agulhas. Comi bode com macaxeira. Bebi pinga com pau de cheiro olhando no rio as faúlhas coriscanco no céu, ligeiras. Povo baiano hospitaleiro, gente do Brasil que me orgulha; do meu sorriso faço a flâmula. Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 21h26
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Lapa do Bom Jesus, Bahia une um colosso natural ao espetáculo da fé. Na pedra, os íngremes caminhos dos romeiros em suas jornadas; pisam a terra e olham o céu. Também, ali, andam turistas mostrando ares deslumbrados. Não alheio, entre ambos, o poeta. Longe do céu vai a sua escritura. No seu errar, tocando flauta, a alma da Lapa ele desvela. Quer sejam fiéis em romaria, ou os turistas na algazarra, outro é, do poeta, o comércio. Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 10h08
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Em Montalvânia, o rio Cochá de águas barrentas, dado às chuvas, ao Carinhanha corre, rápido. Às suas margens, pés de manga com seus pomos, doces, rosados numa extensão que o olhar não alcança. Minas Gerais, em Montalvânia, quase divisa com a Bahia o que me encanta, em versos canto. Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 16h01
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Olhava estrelas no céu. Caiu uma do meu lado. Foi a estrela serelepe que deixou-me enamorado. Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 22h12
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Mal deixa o trabalho, vai para o boteco
beber sua pinga. Fica, logo, alcoólico,
cacete, o bebum!
Já, num mau bodum, arma um quiprocó.
Chamam a polícia.
Patife, adormece frente ao delegado. Na cela, deitado,
o acorda a mulher de curto pavio: "toma, homem lorpa, pediste essa tundra". Dizendo isso, o chuta e puxa-lhe a gola da rota camisa. "Quer beber? Bebe, depois, toma pau". Sob duras pancadas que no lombo descem quieto, não pia. Foge, assim, do pior
que é, da sogra, a surra.
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 09h41
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Os sentidos captam
(sonsquasareslucitraços)
a flor no seu vaso.
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 09h00
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Sua beleza tórrida minha pele irrita; incita-me ao mórbido.
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 14h31
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Sol claro, fim de tarde em Curitiba.
Voltando à casa, após o meu trabalho
à pé, na rua, sigo pensativo.
Perscrutativo, sendo mais exato.
Eu vou andando em cima da calçada,
passo após passo, lentos, nesta lida:
tudo o que o pé direito afirma e fala
peralta, o esquerdo nega-lhe a sorrir.
Com um pé falante e outro pé palhaço,
pense o leitor o modo como vou;
incerto, piso o chão no meu dançar.
Na esquina, em ave mudo-me e alço vôo.
Tanto me realça os tons do fim de tarde
que eu pouso em casa, tonto de luz, louco.
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 09h58
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Que a Bicicleta Patafísica com plena força nos pedais
para longe leve os meus ais e assim me deixe bem comigo.
Que a Bicicleta Patafísica levando embora os meus fantasmas
torne pelo mesmo caminho trazendo-me a figura amada.
Que a Bicicleta Patafísica correndo por dentro de um palco
em meio às gentes do bulício agregue valor à nossa arte.
Ah, a Bicicleta Patafísica costura verdades no teatro
e vem se esconder na poesia após roubar da velha o arco.
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 10h37
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Agamben, discorrendo, em seu livro Profanações, sobre o daguerreótipo boulevard du Temple: "Nada a não ser uma pequena silhueta preta sobre a calçada, em baixo e à esquerda na foto. Trata-se de um homem que se fazia engraxar as botas e que, por isso, ficou imóvel bastante tempo, com a perna mal e mal erguida para apoiar o pé sobre a caixa do engraxate. (...) No instante supremo, o homem, cada homem, fica entregue para sempre a seu gesto mais ínfimo e cotidiano".
I (08/12/09)
Qual é a medida? Agamben, desse sempre;
dessa corrente viva que nos trouxe
a ver em foto o cós do pensamento?
Eu, cá comigo, a dúvida me soube:
Pegaste o gesto, o homem não, atesto.
Gesto que dura o tempo material
que a estampa rói em nuances amarelas
e, aos poucos, leva ao cabo esse retrato.
O engraxate, é certo, já morreu.
Também, o homem em pé à sua frente
que contratou os bons préstimos seus.
Se a própria Terra, me ouça, não é perene,
eu te pergunto, amigo e mestre meu,
qual a medida justa a dar ao sempre?
Escrito por Navarro às 08h15
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II (09/12/09)
Do homem, restou apenas a silhueta
mais estes sons, aqui, destes meus versos
que fazem eco às linhas tuas, veja.
Tudo isto tem o tempo seu, incerto:
do daguerreótipo, a imagem que tu vês
junto às palavras todas que a referem.
Qual é a medida, Agamben, desse sempre?
"Somos um haver da morte", disse Horácio
e me fez crer que nada é permanente;
embalde o esforço, nada durará.
Não há o que dure sempre e eternamente,
tudo terá, um dia, o seu final.
Desta poesia, o fim, que alguém o invente
dando algo ao vivo, sempre, que, afinal...
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 08h34
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Ontem foi domingo,
dia chato.
Curti uma preguiça
em casa.
E não fui à missa.
E não vi TV.
Dei o dia ao livro.
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 09h12
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Vi um não-sei-quê
que me deixou não sei como no sambalelê.
Navarro, o Dua.
Escrito por Navarro às 14h02
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